quarta-feira, 13 de junho de 2018

MACONDO UM MUNDO NENHUM NO MAR


Por Sidney Nunes

                        Hoje o mar faz onda feito criança, no seu balanço calmo nós descansamos. Nessas horas dorme longe a lembrança da felicidade. Quando a tarde toma a gente nos braços, sopra um vento que dissolve o cansaço, é o avesso do esforço que eu faço para ser feliz. O que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia, as cores, figuras, motivos, o sol passando sobre os amigos, histórias, bebidas, sorrisos e afeto em frente ao mar.
                     Quando as sombras vão ficando compridas, enchendo a casa de silêncio e preguiça, nessas horas é que Deus deixa pistas da felicidade e quando o dia não passar de um retrato, colorindo de saudade o meu quarto, só aí vou ter certeza de fato que eu fui feliz em Macondo.
                     Macondo fica aqui e ali. Nosso ponto pacífico, nossa linhagem de solidão. Pode ser seu quarto, pode ser que não. É lugar grande, fora do mapa. Ache-me aqui quando quiser. Sente-se aqui, estique as pernas e me fale de felicidade.
                   Meu nome é Sidney Nunes de Oliveira, passei a noite sonhando com lugares na minha imaginação. Cansado de lugares onde não se escuta o ronco da barriga do mundo, mundo de fronteiras, de credo, de cor, sexo, de amor, de deus, de fome e de dor. Há homens de mãos de ferro que quebram corações de pedra, cultivam flores, livres do cativeiro de si e entoam outros cantos. Levantei pela manhã com meu propósito bandeirante:
                 Eu, Mitos, Aries, Prometeu, derrubamos árvores, abrimos uma clareira, e em sete dias levantamos nossa Macondo. Utopia possível que me atormenta até hoje. Lá erguemos nosso mundo repleto de contradições. Para se ter idéia e fazer sentido (ou não) narro este fato:
                 Mitos casou-se com uma menina linda, a mais linda do mundo, por ser linda e sedutora outras mulheres a invejavam e criavam estórias que viraria lenda. Para todos ela protegia o mundo e devorava homens que o pensassem em desejar ou destruir. Para muitos, Mitos só a teria até desvirginá-la, a partir de então seria devorado.
Um dia Mitos saiu para caçar buscar alimento para a família. A volta havia sido produtiva, estava feliz, pois caçara o maior tenro cervo para o jantar; o sangue escorria pelo corpo do animal, vermelho vivo.
                Eva em casa esperava Mitos, pela primeira vez menstruava assustada; o sangue escorria pelas pernas, viscoso e quente. Mitos abre a porta, se assusta, olha o cervo em sangue e a mulher em sangue...a cena durou minutos, em silêncio profundo. Mitos desaba de joelhos e chora. A partir desse dia Mitos ficou na memória e modificou a vida do seu mundo. Instituiu-se na aldeia o “O dia do sentido da vida”.
                Nesse dia as meninas ficavam acorrentadas. Choramingavam num canto de uma jaula feita de ossos e ornadas com cabeças de outras crianças. Nuas sentiam muito frio. Os corpos estavam feridos por vários cortes profundos na pele. De quando em quando outros eram feitos para vê-las gritar para delírio do mundo.
                Cada um da comunidade tinha uma função específica: Aries organizava as relações sociais, as regras eram criadas a partir da observação do comportamento do coletivo, Prometeu cuidava da alimentação e produção. Eu? Já havia morrido no sonho que não era mais meu, Macondo nunca existiu.
                Além dos cortes que eram feitos nas meninas, elas recebiam pancadas de bastão para amaciar a carne, a ser comida. Outras mulheres se juntavam aos pares e trocavam carícias, se lambiam, se chupavam, enquanto os meninos esfregavam os pênis e penetrar-lhes as mãos nas vaginas. As mulheres mais velhas vigiavam, para espantar-lhes. Todos gritavam, dançavam em frenesi, levantavam a mão para o céu e gritavam o nome de Mitos, sentiam uma sensação de poder do céu, perante aquilo que não tinham respostas, assim como o vento que soprava forte, esperavam respostas mais só o silêncio falava.
                 As meninas que menstruavam lambiam os dedos sujos do sangue que lhes jorrava das pernas exaltando a Eva. Outras meninas mais novas assistiam o que era já um gesto cotidiano do “Dia do sentido da vida”. Muitas meninas se uniam aquelas para imitar ou só para aprender. Os meninos aprendiam, observando com toda atenção os atos, para poder passar as gerações futuras.
                  Os caçadores traziam três cervos para assar na fogueira no centro da aldeia. Todos entendiam que ao cair da noite todos poderiam se fartar com a carne das meninas acorrentadas, dos cervos que chegavam e festejar por comer a si mesmos em busca de sabedoria. A morte das meninas não poderia ser apressada pois tiraria a maciez da carne cerebral e do corpo.
                 Os homens se pintavam com o sangue dos cervos, pintavam os meninos em fila e depois dançavam sem parar. Só dançavam, em silêncio absoluto, na hora da pintura.
É noite todos pegam seus porretes e se dirigem as meninas ainda vivas, cada um dá uma porretada e Prometeu corta pedaços e se encarrega de distribuir para todos, ninguém ficaria sem comer. Comeram beberam sangue das mortas e de outras e mais outras, limparam os ossos, ofereceram a Mitos e Eva, dispostos no centro da aldeia, sentados para admirar em silêncio o sentido da vida. Meu barco a vela navega esse rio, não ilumina o mar. Mar que não conheço a fundo, onde o vento parece querer morar de vez. Teatro onde se encena mundos, e marlins azuis são raros, observo da minha aldeia, que lá em outros mundos estão abatendo baleias como aqui fazem com as meninas.


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