quarta-feira, 13 de junho de 2018

MACONDO UM MUNDO NENHUM NO MAR


Por Sidney Nunes

                        Hoje o mar faz onda feito criança, no seu balanço calmo nós descansamos. Nessas horas dorme longe a lembrança da felicidade. Quando a tarde toma a gente nos braços, sopra um vento que dissolve o cansaço, é o avesso do esforço que eu faço para ser feliz. O que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia, as cores, figuras, motivos, o sol passando sobre os amigos, histórias, bebidas, sorrisos e afeto em frente ao mar.
                     Quando as sombras vão ficando compridas, enchendo a casa de silêncio e preguiça, nessas horas é que Deus deixa pistas da felicidade e quando o dia não passar de um retrato, colorindo de saudade o meu quarto, só aí vou ter certeza de fato que eu fui feliz em Macondo.
                     Macondo fica aqui e ali. Nosso ponto pacífico, nossa linhagem de solidão. Pode ser seu quarto, pode ser que não. É lugar grande, fora do mapa. Ache-me aqui quando quiser. Sente-se aqui, estique as pernas e me fale de felicidade.
                   Meu nome é Sidney Nunes de Oliveira, passei a noite sonhando com lugares na minha imaginação. Cansado de lugares onde não se escuta o ronco da barriga do mundo, mundo de fronteiras, de credo, de cor, sexo, de amor, de deus, de fome e de dor. Há homens de mãos de ferro que quebram corações de pedra, cultivam flores, livres do cativeiro de si e entoam outros cantos. Levantei pela manhã com meu propósito bandeirante:
                 Eu, Mitos, Aries, Prometeu, derrubamos árvores, abrimos uma clareira, e em sete dias levantamos nossa Macondo. Utopia possível que me atormenta até hoje. Lá erguemos nosso mundo repleto de contradições. Para se ter idéia e fazer sentido (ou não) narro este fato:
                 Mitos casou-se com uma menina linda, a mais linda do mundo, por ser linda e sedutora outras mulheres a invejavam e criavam estórias que viraria lenda. Para todos ela protegia o mundo e devorava homens que o pensassem em desejar ou destruir. Para muitos, Mitos só a teria até desvirginá-la, a partir de então seria devorado.
Um dia Mitos saiu para caçar buscar alimento para a família. A volta havia sido produtiva, estava feliz, pois caçara o maior tenro cervo para o jantar; o sangue escorria pelo corpo do animal, vermelho vivo.
                Eva em casa esperava Mitos, pela primeira vez menstruava assustada; o sangue escorria pelas pernas, viscoso e quente. Mitos abre a porta, se assusta, olha o cervo em sangue e a mulher em sangue...a cena durou minutos, em silêncio profundo. Mitos desaba de joelhos e chora. A partir desse dia Mitos ficou na memória e modificou a vida do seu mundo. Instituiu-se na aldeia o “O dia do sentido da vida”.
                Nesse dia as meninas ficavam acorrentadas. Choramingavam num canto de uma jaula feita de ossos e ornadas com cabeças de outras crianças. Nuas sentiam muito frio. Os corpos estavam feridos por vários cortes profundos na pele. De quando em quando outros eram feitos para vê-las gritar para delírio do mundo.
                Cada um da comunidade tinha uma função específica: Aries organizava as relações sociais, as regras eram criadas a partir da observação do comportamento do coletivo, Prometeu cuidava da alimentação e produção. Eu? Já havia morrido no sonho que não era mais meu, Macondo nunca existiu.
                Além dos cortes que eram feitos nas meninas, elas recebiam pancadas de bastão para amaciar a carne, a ser comida. Outras mulheres se juntavam aos pares e trocavam carícias, se lambiam, se chupavam, enquanto os meninos esfregavam os pênis e penetrar-lhes as mãos nas vaginas. As mulheres mais velhas vigiavam, para espantar-lhes. Todos gritavam, dançavam em frenesi, levantavam a mão para o céu e gritavam o nome de Mitos, sentiam uma sensação de poder do céu, perante aquilo que não tinham respostas, assim como o vento que soprava forte, esperavam respostas mais só o silêncio falava.
                 As meninas que menstruavam lambiam os dedos sujos do sangue que lhes jorrava das pernas exaltando a Eva. Outras meninas mais novas assistiam o que era já um gesto cotidiano do “Dia do sentido da vida”. Muitas meninas se uniam aquelas para imitar ou só para aprender. Os meninos aprendiam, observando com toda atenção os atos, para poder passar as gerações futuras.
                  Os caçadores traziam três cervos para assar na fogueira no centro da aldeia. Todos entendiam que ao cair da noite todos poderiam se fartar com a carne das meninas acorrentadas, dos cervos que chegavam e festejar por comer a si mesmos em busca de sabedoria. A morte das meninas não poderia ser apressada pois tiraria a maciez da carne cerebral e do corpo.
                 Os homens se pintavam com o sangue dos cervos, pintavam os meninos em fila e depois dançavam sem parar. Só dançavam, em silêncio absoluto, na hora da pintura.
É noite todos pegam seus porretes e se dirigem as meninas ainda vivas, cada um dá uma porretada e Prometeu corta pedaços e se encarrega de distribuir para todos, ninguém ficaria sem comer. Comeram beberam sangue das mortas e de outras e mais outras, limparam os ossos, ofereceram a Mitos e Eva, dispostos no centro da aldeia, sentados para admirar em silêncio o sentido da vida. Meu barco a vela navega esse rio, não ilumina o mar. Mar que não conheço a fundo, onde o vento parece querer morar de vez. Teatro onde se encena mundos, e marlins azuis são raros, observo da minha aldeia, que lá em outros mundos estão abatendo baleias como aqui fazem com as meninas.


A MENINA NO PLANETA UTOPIA



Por SIDNEY NUNES


            A mamãe levou sua filha ao cinema para assistir um filme sobre as crianças do mundo. Sentaram-se nas cadeiras do cinema que escureceu e começou o filme. Ela falou:
            Está vendo que existem crianças diferentes umas das outras? Umas pobres, outras ricas, umas brancas, outras negras, de olhos castanhos, azuis, verdes, puxados, redondos, grandes, pequenos. Crianças com saúde, outras doentes, com incapacidades, outras perfeitas, tristes e alegres.
            - Porque, mamãe? Quis saber a menina.
            - Porque, ah! Sei lá! Porque sim.
            - Porque sim não é resposta! Deve haver um lugar onde todos são iguais.
            - Isso a gente chama de utopia filha!
            A menina fechou os olhos e ficou pensando como achar e conhecer um lugar chamado utopia.
            No dia seguinte foi ao quintal com uma ideia, desenhou uma espaçonave no chão e resolveu construir, chamou um amigo e uma amiga e contou seu plano de construir uma nave para voar no espaço e procurar um planeta onde todas as crianças fossem iguais, que sua mãe disse se chamar utopia. Era simples construir apontar o bico da nave em direção a lua e voar direto para lá, logo atrás tinha um planeta escondido. Para isso precisava descobrir quanto tempo levaria para chegar e tinha que ser em lua cheia.
            Passaram a tarde juntos, desenhando, fazendo contas, até a hora de irem para suas casas. O sono foi de muitos sonhos, ideias e imagens. No dia seguinte cada um trouxe algo para começarem a construção e falar sobre o que levar para comer, bolachas, chocolates, balas e muita água.
            - Não podemos levar doces! Numa viajem que demora a gente precisa levar muitas frutas e legumes, senão a gente pode engordar e a nave pode cair.
 Então sua amiga Gabi disse:
- Será que essa coisa de planeta utopia existe mesmo? Nunca ouvi falar nisso, e se as nuvens baterem na nave e a gente ficar presos no céu?
Pedrinho teve uma ideia:
- Vamos levar uns balões de festa e muita corda para gente se amarrar. Se a gente ficar preso, a gente enche os balões e pula para a terra.
Mariana falou:
- Gente! Nuvem é só fumaça. Vamos levar os balões, mas também vamos levar oxigênio em saquinhos para caso a gente precise respirar.
- Nossa nave já está pronta! Como eu sou o único menino eu que vou pilotar.
Gabi retrucou:
- Não! Não mesmo! Nós somos duas meninas e você é só um, nós que vamos pilotar!
Mariana assumiu o comando.
- Eu tive a ideia!
- Combinado! Concordaram os dois.
Entraram na nave apertada, colocaram os cintos de segurança e VRRUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMMM...
Lá se foram céu acima. O planeta atrás da lua não era perto, demorava a chegar. Até que chegaram a lua finalmente. Abaixaram os colchões na traseira da nave para descer no macio. Mariana desceu tranquila e pousou.
Desceram todos na lua e ficaram maravilhados. A lua parecia um queijo todo furado. Olharam para todos os lados a procura do planeta utopia. Até que viram uma pequena estrela que brilhava e piscava muito.
Gritou Mariana:
- Olha lá! Encontrei! Precisava agora pensar em como chegar até lá. Pensaram... pensaram... pensaram muito, muito mesmo...
Gabi falou primeiro:
O Pedrinho trouxe um montão de corda. A gente desenrola ela toda, tiramos as pedras das botas que prendem a gente no chão da lua, amarramos na ponta da corda as pedras e jogamos para o planeta. Ela vai ficar esticada e a gente bem leve pode subir neta e chegar até lá.
Pedrinho respondeu:
- É! Amarramos uma outra corda em nós para ninguém se perder.
Lançaram a corda em direção ao planeta e ela se esticou todinha, as pedras foram direto e caíram no chão do planeta. Todos estavam bem leves que conseguiram irem se apoiando na corda e avançando para o planeta até se aproximarem do chão. A medida que chegavam tudo mudava de cor. Descobriram que estavam atravessando o arco - iris. Todos estavam maravilhados. Ninguém ficou com medo.
Estavam adorando a aventura. Pisaram no chão e viram o lugar mais bonito do mundo. Não conseguiam nem falar. Crianças voavam, brincavam, plantavam, eram todas amigas, se ajudavam mesmo sendo diferentes. Os bichos de lá eram todos mansinhos. Tinha até uma gata que era casada com um rato. Uma cobra que cuidava de pintinhos. Um leão que só comia legumes. Era tudo cheio de paz.
Começaram a ficar com muita fome e sede. Tentaram beber e comer, mas a água atravessava as mãos, assim como tentaram pegar frutas, doces, mas tudo se evaporava, eram só imagens, imaginação.
Cansados e com fome resolveram voltar para a nave. Estavam muito felizes com o planeta. Todos seguraram firme na corda e foram voltando devagar para a nave e partiram novamente para casa. Voltaram em um completo silêncio, pousaram, comeram sem parar e exaustos foram para suas casas dormir.
Acordaram muito cedo, pareciam flutuar de contentamento, tanto que provocavam olhares curiosos por onde passavam. Ao se encontrar desembestaram a falar sem parar.
Dizia Pedrinho;
- É um lugar de imaginação, tudo que a gente pensava acontecia.
Disse Mariana:
- Era tudo muito bonito! Não sei como explicar! Era muito colorido, alegre, tinha cama mas não dava para deitar, tinha comida mas não se podia comer, tinha casa mas não dava para entrar...
- Tudo parecia um sonho! Falou Gabi.
Respondeu Pedrinho:
- Parecia sonho, mas não foi, não é!
Passaram a contar essa aventura para todos que encontravam. Mas não acreditavam muito, porque ela só sabia dizer que era tudo muito lindo. Só restava a Mariana tentar fazer reproduzir aqui tudo que aconteceu no planeta Utopia.
Então ela deu um sorriso, relembrou toda a aventura na cabeça, e ficou com aquele rosto de mistério contente para sempre.


segunda-feira, 11 de junho de 2018

OS HOMENS QUE COMIAM PARQUES


OS HOMENS QUE COMIAM PARQUES

(CRIANÇAS BRINCAM E CANTAM NUM PARQUE QUALQUER DE UMA ESCOLA QUALQUER. CHEGAM HOMENS DE TERNO, BIGODE, ÓCULOS E GORDUCHOS, UM DELES PEDE ATENÇÃO DAS CRIANÇAS INTERRONPENDO A BRINCADEIRA).
1,2,3 ERA UMA VEZ – Música de Fernando Negrão
1,2,3, era uma vez
Uma estória quero ouvir,
Muitas vezes volto a pedir,
Para a estória repetir.

Gosto de ver as imagens,
Novos mundos a descobrir,
De fazer muitas viagens,
Em aventuras partir.

1,2,3, era uma vez...
- Crianças! Crianças! Estou aqui para dizer para vocês que eu vou fazer uma coisa maravilhosa com este parque! Vou construir aqui um shopping bem grande e um prédio para morar.
UM GAROTO – Como assim? Aqui é nosso parque, é nossa escola!
UMA GAROTA – Não pode. Onde a gente vai brincar?
UM GAROTO – Eu estou aqui para aprender e brincar também!
(PARA A SURPRESA DE TODOS SURGEM FORMIGAS CANTANDO).
“Foi no mercado comprar café,
E as formiguinhas subiram no seu pé...
Sacudi, sacudi, mas as formiguinhas não paravam de subir...”
-Eu estou aqui para comer e passear!
(OUTRA FORMIGA).
- E levar comida para guardar!
(TODOS GRITAM: OHOOOOOO! PORQUE SURGE UM PASSARINHO).
“Passarinho quer dançar, o rabicho balançar,
Porque acaba de nascer, tchu, tchu, tchu.
Passarinho quer dançar, quer ter canto pra cantar,
Pra alegria de viver, Tchu,tchu,tchu.
Se biquinho quer abrir, as asinhas sacudir,
O rabicho remexer, tchu, tchu, tchu.
Joelhinho vai dobrar, dois saltinhos só pra ver,
Vamos voar...”
- Eu estou aqui para brincar e cantar!
(OS HOMENS DE TERNO E GORDUCHOS FALAM AO MESMO TEMPO).
-Nós estamos aqui para construir prédios!
(O GAROTO, A GAROTA A FORMIGA E O PASSARINHO).
- Aqui não seus Barrigas!
(SEU BARRIGA)
- Então vou chamar o Seu Soldado! Crianças vão para outro lugar!
(SEU SOLDADO CHEGA MARCHANDO COM OUTROS SOLDADOS EM FILA).
- Um, dois, feijão com arroz, três, quatro, feijão no prato, cinco, seis, feijão francês, sete, oito, feijão com biscoito, nove e dez, feijão com pastéis.
Alto! Crianças obedecer! Sentido! (AS CRIANÇAS RIEM E IMEDIATAMENTE SE CALAM COM A CHEGADA DE UM CACHORRO ENORME QUE TOMA A FRENTE DELAS E ROSNA PARA OS SOLDADOS ASSUSTADOS).
“Língua de fora, abana o rabo, levanta a perna e faz xixi,
Au, au, au, au, au,au, au...
O cachorro late quando faz au, au,
Levanta a perna pra fazer..xixi
Abana o rabo que é pra falar... Oi
Põe a língua para fora pra sorrir,
Ah, se você quer um amigo pra valer,
O cachorro seu amigo pode ser,
Jogue a bola que ele traz ela de volta,
Essa amizade só depende de você”.

- Eu estou aqui para brincar e latir... eu acho, e defender meus amiguinhos.
(AS ÁRVORES COMEÇAM A SE MOVER E CERCAM TODO MUNDO).
- Ninguém vai construir prédios aqui. Não se pode destruir parques!
(UM VENTO FRIO SOPRA FORTE E SE OUVE BARULHOS DE TROVÃO. É A DONA MORTE QUE GRITA LÁ NO FUNDO DO PARQUE).
- O parque é cheio de vida e diversão. O Sr. Tem que aprender amar a vida.
(TRES PEDRAS SE MOVIMENTAM E SE JUNTAM AS CRIANÇAS E A TODOS).
- Tem muita vida sim! Seremos pedras no seu caminho. E estamos pra ficar!
O SOLDADO – O seu Barriga quer fazer um bonito shopping aqui!
SEU BARRRIGA – Isso...Isso..Isso. Muitos doces, muitas roupas, muitos brinquedos...
A GAROTA – É tudo de graça? Vai ter balanço? Vai ter gangorra? Casinha das meninas? Árvores, terra, formigas, passarinhos, cachorros e outras coisas? (APONTA PARA A SRA. MORTE).
SR. BARRIGA – De graça não! Mas vai ser bem baratinho. As árvores vão para uma floresta. Terra vamos varrer. Balanço e gangorra estão fora de moda, agora é tempo de computador. Meninas não precisam de casinha de mentira.
AS ÁRVORES – Estamos aqui a muito tempo. Combatemos a poluição, damos sombra e temos muitos amiguinhos.
AS FORMIGASForam ao mercado comprar bata roxa,
                              E as formiguinhas subiram nas suas coxas,
                              Eu sacudi, sacudi, sacudi, e as formiguinhas não paravam de subir...”
- Nós somos amigos delas, ninguém vai se mudar senão vamos te picar!
O CACHORRO – Eu coloco para correr!
A MORTE – Se insistir eu te levo embora Seu Barriga!
TODOS – Vamos te colocar para correr!
(ABELHAS SE JUNTAM A TODOS).
“A abelhinha voa, voa,
Voa, voa sem parar,
Passeando pelas flores,
Sua musica cantar”...(BIS)

ABELHAS – Quem nunca comeu mel, quando come se lambuza. O Sr. Nunca foi criança? Nunca brincou num parque?
O GAROTO – No parque não só isso. Tem também nossa imaginação.
AS FORMIGAS“Foram ao mercado comprar melão
                              E as formiguinhas subiram na minha mão,
                         Eu sacudi, sacudi, sacudi, mas as formiguinhas não paravam de subir...”
-  Tem muita vida e alegria. Muitos pássaros, muita árvore, muita abelha, muitos grãos.
O SOLDADO – “Um dois feijão com arroz..tres, quatro, feijão no prato...”
- Nos prédios e shoppings, é cada um por si.
O CACHORRO – Aqui tem brincadeiras de montão. Brincadeira de criança é bom..

AS ÁRVORES E TODOS“Se você está contente bata palmas...”

SR BARRIGA – Tá bom! Tá bom! Tá bom! Meu amiguinho de infância chamado Quintana me disse uma vez: Nunca se deve tirar brinquedo de uma criança, tenha ela três, seis ou sessenta anos. (CONTINUAM AS MÚSICAS).

segunda-feira, 5 de junho de 2017

UMA TARTARUGA CHAMADA GERTRUDES


                                          por: SIDNEY NUNES

Baseado nos contos:

Velha história – Mário Quintana

O funeral da tartaruga – Millôr Fernandes

Segundo estudiosos e educadores, revelam que a capacidade de educandos reterem informações se esgotam entre 10 e 20 minutos, as conclusões decorrem de observações feitas em salas de aula e de estudos realizados nas áreas de psicologia e neurociências. A vantagem do teatro para crianças é que os assuntos abordados são carregados de movimentos, é agora, acontecimento, experimentação, fica dependendo do ator conduzir essa interação com o público infantil.

OBS: Este texto dramático pode ser aplicado em três doses homeopáticas:

1º O nascimento da tartaruga

2º Vida da tartaruga

3º O funeral da tartaruga


Vamos desenhar e colorir o cenário.




O NASCIMENTO

MÃE – Era uma vez, um menino muito bonito, que morava numa casa bem pertinho de um rio. Todos os dias, lá pelo finalzinho da tarde, naquela hora em que o sol procurava o cobertor para não ficar com o frio da noite, ele antes do banho e do jantar, ia passear nas margens do rio, chutando pedras e cantarolando. Seu pai nesse horário, sentava-se na cadeira de balanço observando o passeio do menino.
JUCA – Mãe, não quero ouvir estórias de meninos, meninas, princesas e reis!
MÃE – Você quer ouvir estórias de que então?
JUCA – De monstros, bichos que devoram pessoas!
MÃE – Bom, vou te contar a estória do nascimento de um monstro, que quase provocou uma guerra entre: animais, aves e outras coisas, mas lembre-se de que está na hora de dormir! Então, fique calado. Era uma vez, lá no fundo do mar morava uma Ostra bem grande, bem grande mesmo, parecia uma pedra enorme com uma boca enorme.
JUCA – Que medo! Gostei, conta mais.
MÃE – Todos os dias ela abria sua boca enorme para comer tudo que aparecesse e entrasse na sua boca. Tudo mesmo. Um dia um casal de tartarugas nadava por perto e foi se aproximando daquela boca grande, foi quando a esperta Ostra fez surgir no escuro da sua boca uma luz muito brilhante e linda que saia de uma bola branca lisinha que pela beleza hipnotizava as vítimas. O casal de tartarugas hipnotizados entraram e: - BUUUM! A Ostra fechou a boca e elas sumiram lá dentro. A Ostra cada vez que fazia isso dava gargalhadas que deixavam todos os bichos do mar aterrorizados. Até mesmo o tubarão e as baleias. Era uma Ostra cruel. Bonitinha por dentro, mas ordinária por fora. Sua diversão era devorar tudo. Onde já se viu?
JUCA – O que ela fez com as tartarugas, mãe? Como ela devorou se ela não tinha dentes? Acho que ela prendeu na luz da bola.
MÃE – Não! A bola se chamava Pérola, também estava prisioneira, na verdade a Ostra não devorava, ela prendia para não ficar sozinha, mas as vítimas morriam porque não tinham o que comer e viravam suco de ostra. Ela não contava com a esperteza das tartarugas que viraram amigas da Pérola. As tartarugas depois de um ano... um ano... as tartarugas tiveram uma ideia, dois anos depois... dois anos...elas já tinham duas ideias e contaram para a Pérola. Nesse meio tempo de duas ideias, nasceu de uma das tartarugas uma tartaruga, bebê dentro da Ostra. Um pequeno monstro que deu o que falar lá dentro, ninguém sabia como, se o pai era a Pérola, a outra tartaruga ou a Ostra, já que tinha uma corcunda da cor da Ostra. Nasceu também com cara de coitada e nunca parava de falar e todos achavam que ela nascera doente porque não deligava a boca. Demoraram três anos para perguntar:
TARTARUGA - O que foi está doente?
TARTARUGA – Não mãe, não pai, estou com dor de barriga. No ano seguinte a mãe respondeu:
TARTARUGA – Eu sei como resolver, bebe bastante molho de Ostra que solta o intestino e TCHBUMMMM! Mas a dor já tinha ido embora.
JUCA – Que estória chata e demorada! Conta outra.
MÃE – Calma! Agora que fica interessante! Elas resolvem fugir de dentro da Ostra. Tiveram a ideia junto com Pérola que se com um pedaço de graveto cutucassem a boca da Ostra poderiam fazer um buraco e fugir.
JUCA – Ah! Foi assim que surgiram as cáries! Ficaram surpresos com minha astúcia!
MÃE – Para de interromper, menino. Levaram mais um ano, mas conseguiram abrir um buraco por onde poderiam passar e levar a Pérola, demoraram mais um ano para empurrar Pérola. Quantos anos se passaram?
JUCA – Acho que sete anos. Não sei.
MÃE – O mar estava muito forte naquele dia e arrastou todos para cima e para a praia, só que cada um para um lado diferente. A tartaruga nova foi para na praia e caminhou pela areia por horas até encontrar numa floresta um monte de animais, coelhos, patos, cobras, gansos, sapos, tubarões, macacos e gatos, cada um tinha um nome e isso deixou a tartaruga curiosa.
TARTARUGA – Macaco Mico! Todos aqui, tem um nome, poderia arrumar um nome para mim? Não quero me chamar tartaruga, minha mãe chama tartaruga, meu pai chama tartaruga, eu gostaria de ter outro nome.
MICO – Que tal Gertrudes?
TARTARUGA – Isso! Agora eu sou a Gertrudes.
PATO – (Gritou). Não pode!
TARTARUGA – Porque?
PATO – Porque Gertrude é nome de pato, na minha família já tive duas tias, uma sobrinha.
MICO – Não é não! Vamos apagar os vaga-lumes! Tá na hora de dormir, amanhã a gente conversa com todos.
            Todo se ajeitaram muito bem e dormiram um sono tranquilo. As formigas e as corujas nunca dormem. A girafa só dorme por duas horas. O bicho preguiça dorme por vinte horas.
            O dia começou a surgir e o galo cantou bem alto acordando todo mundo. Todos acordaram e a confusão começou.
            O elefante discutiu com o leão. A mosca bateu asas. O preguiça escorregou na banana do macaco. O caranguejo perdeu a gravata. A cobra foi jogar bola. A zebra perdeu as listras. A formiga teve um bebê. Os gansos começaram uma gritaria e juntaram, marrecos, patas galinhas e o leão, os outros bichos gritavam coxinhas.
            Gertrudes ficou com o nome sob a alegação do macaco que todos eram iguais e com os mesmos direitos, a palavra final foi do elefante:
            - Tenho dito!





VIDA DE TARTARUGA


Juca andava perto do lago e encontrou uma tartaruga de barriga para cima, achou que estivesse morrendo. Correu até ela, fez massagem cardíaca, respiração boca a boca e nada.

JUCA - Vamos! Vamos! Acorda! Toma um pouquinho de água! Vou vestir você com minha blusa, vou te levar para casa, fazer um chá e te colocar na cama até ficar boa.
MÃE - Que bicho é esse menino?
JUCA - Encontrei lá perto do lago, está doente, vou cuidar dela até melhorar.
MÃE - Não quero esse bicho feio dentro de casa!
PAI - É só uma tartaruga mulher! Deixa ele cuidar dela.
JUCA - Obá! Arrumei uma amiguinha! Passou o dia cuidando de Gertrudes enquanto brincava no quintal. - Olha! Uma joaninha! Vou guardar para dar sorte.
PAI - Juca, corre aqui! Venha ver. Temos uma visita. Um galo fujão! Vamos pegar ele e guardar no porão e depois procurar o dono. Me ajude a pegá-lo.
JUCA - Vem tartaruga ajudar! (Começou uma correria divertida)
PAI - Esse galo é rápido demais.
JUCA - Deixa que agora eu pego ele!  (O galo estava se divertindo, tropeço na tartaruga e o pai conseguiu pegá-lo pelo pé). Viva! A minha tartaruga pegou ele!
MÃE - Mas o que é isso! Porque todos estão tão sujos? (riram)
JUCA - Tem um galo preso lá fora! Apareceu no nosso quintal e prendemos ele no porão.
MÃE - Está bom! Vou levar um pouco de milho para ele. E vocês dois já para o banho!
JUCA - Xiiiiii! Derrubei a joaninha lá fora! Minha Joaninha sumiu.
PAI - Amanhã você e a tartaruga encontram ela pelo quintal.
JUCA - Mas ela pousou em mim, queria ficar comigo. Eu quero minha amiga.
MÃE - Assim que você acordar de manhã pegamos a tartaruga e ajudo vocês a procurarem.
PAI Vai dormir depois do banho que amanhã a gente encontra.

(No meio da noite Juca acordou para fazer xixi e viu a luz da lua entrando pela janela e foi olhar, ela estava bem em cima da janela conversando com a tartaruga)

LUA -Então seu nome é Gertrudes? Vou iluminar cada cantinho e você procura a joaninha para seu amigo JUCA.
GERTRUDES - Ela é vermelha de bolinhas pretas. Essa procura pode demorar a noite toda.
JUCA - Então seu nome é Gertrudes né? Dona Lua eu posso pedir ajuda para as estrelas para ajudar a gente!
LUA - Isso! Isso!
GERTRUDES - Não precisa! Eu já achei! Ela está lá no balanço brincando. Olha lá!
LUA - É mesmo! Olha só que danada!
GERTRUDES - A sua luz bateu na pele dela e as bolinhas dela brilharam.
JUCA - Preciso dormir. Vou colocar a JOANA na cama para ela não se perder. Boa noite Gertrudes! Boa noite lua! Obrigado.
 MÃE - hora do café! Todo mundo levantando, lavando o rosto, escovando os dentes e já para a mesa!

Depois de um sono bom
A gente levanta, toma aquele banho,
escova os dentinhos ,
na hora de tomar café,
é um café quentinho
que a mamãe prepara com todo carinho,
tomar café é bom, é café fresquinho.

PAI - Vamos logo, pois temos que achar o dono do galo.

JUCA - Vou pegar a coleira da Gertrudes e acordar a Joana, elas vão ajudar.
MÃE- Quem é Gertrudes?
PAI - Quem é Joana?
JUCA - Joana é minha joaninha e Gertrudes é o nome da tartaruga, que a Lua contou para mim, elas acharam a Joana ontem a noite.
PAI - Crianças tem muita imaginação.
MÃE - Acho que vem gente lá longe!
PAI - Tem razão. E vem com pressa!
JUCA - Oi! Quem vem lá?
HOMEM - Bom dia pessoal! Vocês por acaso não viram um galo, que se bandeou para estas bandas, que gosta de bagunça?
PAI - Achamos ele sim! Bagunceiro, mas conseguimos pegar e trancar no porão para depois procurar o dono.
HOMEM - Graças a Deus! Eu estava preocupado e sentindo muita falta dele.
MÃE - Pode ficar tranquilo, nós cuidamos dele direitinho.
GALO - Cantou ao ouvir o dono.
HOMEM - Frederico! Frederico! ( O galo correu em direção ao dono e se abraçaram)
MÃE - Vamos entrar que está ameaçando uma boa chuva!
PAI - Chuva das boas!
HOMEM - Vou indo antes que caia. Obrigado a todos!
JUCA - Vamos Joana! Vamos Gertrudes!

( Todos correram para dentro de casa, o sol se escondeu, a lua também e Gertrudes não conseguiu chegar a tempo se escondeu nos cascos.)





O FUNERAL DA TARTARUGA

MÃE – Juca! Está chorando porque?
JUCA – Gertrudes morreu!. Arrancaram os braços e a cabeça dela!
MÃE - Morreu! Tá mortinha! Mortinha mesmo de morte morrida!
JUCA – Gertrude acorda! Deus! Me devolve ela já! Ela precisa passear comigo, precisa comer, precisa beber água, precisa fazer cocô. Se o senhor não me devolver ela vai fazer cocô no seu Céu! Vai sujar tudo. Aqui ela vai poder se divertir, correr, brincar, e um montããããão de coisas boas. Trabalhar no quintal. Trabalhar não pode! Tartarugas e crianças não devem trabalhar. Eu ensino ela umas coisas. Depois eu monto nela e ensino ela a imitar um cavalinho...UPA!...UPA!...UPA! Vamos, vamos. Devolve já!
MÃE – Juca! Para já! Não tem mais volta, ela se foi. Para menino! Senão vai acordar seu pai. Eu compro outra.
JUCA – Não quero! Quero Gertrudes, ela sempre foi minha amiga.
MÃE – Te compro um celular! Uma bike! Um patins! Um Skate! Um Notebook!
JUCA – Não. Ela conversava, brincava, era minha melhor amiga.
MÃE – Que amiga que nada! Uma tartaruga velha e preguiçosa, filha de uma Ostra ou sabe-se lá do que, não fazia nada, quando começava a fazer não acabava...
JUCA – Não liga não Gertrudes. Mamãe te chama de velha e preguiçosa, porque ela é gente grande, e gente grande não para, vive correndo, fica cansada e maltrata quem é mais devagar, porque eles têm as pernas grandes. Como ela pode saber que você é velha? Ela não sabe quantos anos você tem. Ela não sabe que você faz um monte de coisas porque nunca foi tartaruga. Tartaruga é tartaruga, criança é criança, gente grande é gente grande. Se Deus te acordar a gente vai mostrar tudinho para ela.
MÃE – Seu pai acordou eu vou chamar ele para conversar com você e ver o que fazer com isso.
JUCA – Lembra Gertrude aquela vez que eu te dei minha moeda? Você guardou na sua casa, tomou banho, passou perfume, eu ajeitei aquela fita vermelha na sua cabeça e você falou que ia arrumar um namorado. Você ficou doente por três dias. Acho que foi muito perfume, só foi dois vidros.
MÃE – Está assim desde manhã, chorando muito e falando sozinho. Não sei mais o que faço. Já prometi tudo e nada.
PAI – Olha Juca. Se ela morreu não adianta chorar. Deixa ela ai e vem conversar comigo, tenho umas coisas para te falar que você pode gostar. Vem amigão!  Filho, sei que você sente muito a morte de Gertrudes. Eu também gostava muito dela. Mas vamos fazer para ela um grande funeral.
JUCA – O que é funeral, pai?
PAI – É um local onde a gente mostra o quanto a gente gostava daquela pessoa que se foi e se despede dela e guarda ela. Vamos comprar uma caixa bem bonita, toda colorida, comprar muitas balas, bombons, chocolates, bolachas, refrigerantes, salgadinhos, acendemos muitas velinhas de aniversário, convidamos todos os amiguinhos, cantamos uma música bem bonita e você sopra as velinhas. Pegamos a caixa colorida com a Gertrudes dentro dela, abrimos um buraco bem grande no quintal, enterramos a caixa, colocamos uma pedra enorme em cima, escrevemos o nome dela na pedra e o dia em que ela morreu. Isso é funeral.
JUCA – Vamos fazer isso! Isso...Isso... Isso...

“Lá vem Gertrudes,
Tartaruga aqui e lá...
Lá vem Gertrudes,
Para ver o que que há...

Gertrude é pateta,
Também tartaruga,
É lenta, é velha,
Tantas fez Gertrudes que foi
Para o Céu...
(repetir)

JUCA – Sabe pai. Não podia ser lá longe onde tem um rio. Aquele lá longe.
PAI – Longe, onde?
JUCA – Lá perto da casa da tia Norma, que gosta de tudo certinho. A amiga do prefeito.
PAI – Filho, o quintal que você fala perto da tia Norma é uma praça ao lado do Rio Tietê, não se pode fazer o que se quer numa praça, nem mesmo abrir buraco.
JUCA – Mas está cheio de buracos lá, até na calçada.
PAI – Só podemos fazer se for em casa.
JUCA – Está bom! Vamos, pai, vamos! A Gertrude vai ficar contente, vai dançando lá para o céu. Eu vou buscar ela.
Pai vem cá! Vem cá, ela está viva!
PAI - Que bom hein? Economizei um dinheirinho – Ela está viva! Não vamos mais ter que fazer funeral!
JUCA – Vai sim pai! Eu mato ela! Eu mato ela!

(GERTRUDES SAI CORRENDO E TODOS CORREM ATRÁS).

FIM





MACONDO UM MUNDO NENHUM NO MAR

Por Sidney Nunes                         Hoje o mar faz onda feito criança, no seu balanço calmo nós descansamos. Nessas horas dorme l...