segunda-feira, 5 de junho de 2017

UMA TARTARUGA CHAMADA GERTRUDES


                                          por: SIDNEY NUNES

Baseado nos contos:

Velha história – Mário Quintana

O funeral da tartaruga – Millôr Fernandes

Segundo estudiosos e educadores, revelam que a capacidade de educandos reterem informações se esgotam entre 10 e 20 minutos, as conclusões decorrem de observações feitas em salas de aula e de estudos realizados nas áreas de psicologia e neurociências. A vantagem do teatro para crianças é que os assuntos abordados são carregados de movimentos, é agora, acontecimento, experimentação, fica dependendo do ator conduzir essa interação com o público infantil.

OBS: Este texto dramático pode ser aplicado em três doses homeopáticas:

1º O nascimento da tartaruga

2º Vida da tartaruga

3º O funeral da tartaruga


Vamos desenhar e colorir o cenário.




O NASCIMENTO

MÃE – Era uma vez, um menino muito bonito, que morava numa casa bem pertinho de um rio. Todos os dias, lá pelo finalzinho da tarde, naquela hora em que o sol procurava o cobertor para não ficar com o frio da noite, ele antes do banho e do jantar, ia passear nas margens do rio, chutando pedras e cantarolando. Seu pai nesse horário, sentava-se na cadeira de balanço observando o passeio do menino.
JUCA – Mãe, não quero ouvir estórias de meninos, meninas, princesas e reis!
MÃE – Você quer ouvir estórias de que então?
JUCA – De monstros, bichos que devoram pessoas!
MÃE – Bom, vou te contar a estória do nascimento de um monstro, que quase provocou uma guerra entre: animais, aves e outras coisas, mas lembre-se de que está na hora de dormir! Então, fique calado. Era uma vez, lá no fundo do mar morava uma Ostra bem grande, bem grande mesmo, parecia uma pedra enorme com uma boca enorme.
JUCA – Que medo! Gostei, conta mais.
MÃE – Todos os dias ela abria sua boca enorme para comer tudo que aparecesse e entrasse na sua boca. Tudo mesmo. Um dia um casal de tartarugas nadava por perto e foi se aproximando daquela boca grande, foi quando a esperta Ostra fez surgir no escuro da sua boca uma luz muito brilhante e linda que saia de uma bola branca lisinha que pela beleza hipnotizava as vítimas. O casal de tartarugas hipnotizados entraram e: - BUUUM! A Ostra fechou a boca e elas sumiram lá dentro. A Ostra cada vez que fazia isso dava gargalhadas que deixavam todos os bichos do mar aterrorizados. Até mesmo o tubarão e as baleias. Era uma Ostra cruel. Bonitinha por dentro, mas ordinária por fora. Sua diversão era devorar tudo. Onde já se viu?
JUCA – O que ela fez com as tartarugas, mãe? Como ela devorou se ela não tinha dentes? Acho que ela prendeu na luz da bola.
MÃE – Não! A bola se chamava Pérola, também estava prisioneira, na verdade a Ostra não devorava, ela prendia para não ficar sozinha, mas as vítimas morriam porque não tinham o que comer e viravam suco de ostra. Ela não contava com a esperteza das tartarugas que viraram amigas da Pérola. As tartarugas depois de um ano... um ano... as tartarugas tiveram uma ideia, dois anos depois... dois anos...elas já tinham duas ideias e contaram para a Pérola. Nesse meio tempo de duas ideias, nasceu de uma das tartarugas uma tartaruga, bebê dentro da Ostra. Um pequeno monstro que deu o que falar lá dentro, ninguém sabia como, se o pai era a Pérola, a outra tartaruga ou a Ostra, já que tinha uma corcunda da cor da Ostra. Nasceu também com cara de coitada e nunca parava de falar e todos achavam que ela nascera doente porque não deligava a boca. Demoraram três anos para perguntar:
TARTARUGA - O que foi está doente?
TARTARUGA – Não mãe, não pai, estou com dor de barriga. No ano seguinte a mãe respondeu:
TARTARUGA – Eu sei como resolver, bebe bastante molho de Ostra que solta o intestino e TCHBUMMMM! Mas a dor já tinha ido embora.
JUCA – Que estória chata e demorada! Conta outra.
MÃE – Calma! Agora que fica interessante! Elas resolvem fugir de dentro da Ostra. Tiveram a ideia junto com Pérola que se com um pedaço de graveto cutucassem a boca da Ostra poderiam fazer um buraco e fugir.
JUCA – Ah! Foi assim que surgiram as cáries! Ficaram surpresos com minha astúcia!
MÃE – Para de interromper, menino. Levaram mais um ano, mas conseguiram abrir um buraco por onde poderiam passar e levar a Pérola, demoraram mais um ano para empurrar Pérola. Quantos anos se passaram?
JUCA – Acho que sete anos. Não sei.
MÃE – O mar estava muito forte naquele dia e arrastou todos para cima e para a praia, só que cada um para um lado diferente. A tartaruga nova foi para na praia e caminhou pela areia por horas até encontrar numa floresta um monte de animais, coelhos, patos, cobras, gansos, sapos, tubarões, macacos e gatos, cada um tinha um nome e isso deixou a tartaruga curiosa.
TARTARUGA – Macaco Mico! Todos aqui, tem um nome, poderia arrumar um nome para mim? Não quero me chamar tartaruga, minha mãe chama tartaruga, meu pai chama tartaruga, eu gostaria de ter outro nome.
MICO – Que tal Gertrudes?
TARTARUGA – Isso! Agora eu sou a Gertrudes.
PATO – (Gritou). Não pode!
TARTARUGA – Porque?
PATO – Porque Gertrude é nome de pato, na minha família já tive duas tias, uma sobrinha.
MICO – Não é não! Vamos apagar os vaga-lumes! Tá na hora de dormir, amanhã a gente conversa com todos.
            Todo se ajeitaram muito bem e dormiram um sono tranquilo. As formigas e as corujas nunca dormem. A girafa só dorme por duas horas. O bicho preguiça dorme por vinte horas.
            O dia começou a surgir e o galo cantou bem alto acordando todo mundo. Todos acordaram e a confusão começou.
            O elefante discutiu com o leão. A mosca bateu asas. O preguiça escorregou na banana do macaco. O caranguejo perdeu a gravata. A cobra foi jogar bola. A zebra perdeu as listras. A formiga teve um bebê. Os gansos começaram uma gritaria e juntaram, marrecos, patas galinhas e o leão, os outros bichos gritavam coxinhas.
            Gertrudes ficou com o nome sob a alegação do macaco que todos eram iguais e com os mesmos direitos, a palavra final foi do elefante:
            - Tenho dito!





VIDA DE TARTARUGA


Juca andava perto do lago e encontrou uma tartaruga de barriga para cima, achou que estivesse morrendo. Correu até ela, fez massagem cardíaca, respiração boca a boca e nada.

JUCA - Vamos! Vamos! Acorda! Toma um pouquinho de água! Vou vestir você com minha blusa, vou te levar para casa, fazer um chá e te colocar na cama até ficar boa.
MÃE - Que bicho é esse menino?
JUCA - Encontrei lá perto do lago, está doente, vou cuidar dela até melhorar.
MÃE - Não quero esse bicho feio dentro de casa!
PAI - É só uma tartaruga mulher! Deixa ele cuidar dela.
JUCA - Obá! Arrumei uma amiguinha! Passou o dia cuidando de Gertrudes enquanto brincava no quintal. - Olha! Uma joaninha! Vou guardar para dar sorte.
PAI - Juca, corre aqui! Venha ver. Temos uma visita. Um galo fujão! Vamos pegar ele e guardar no porão e depois procurar o dono. Me ajude a pegá-lo.
JUCA - Vem tartaruga ajudar! (Começou uma correria divertida)
PAI - Esse galo é rápido demais.
JUCA - Deixa que agora eu pego ele!  (O galo estava se divertindo, tropeço na tartaruga e o pai conseguiu pegá-lo pelo pé). Viva! A minha tartaruga pegou ele!
MÃE - Mas o que é isso! Porque todos estão tão sujos? (riram)
JUCA - Tem um galo preso lá fora! Apareceu no nosso quintal e prendemos ele no porão.
MÃE - Está bom! Vou levar um pouco de milho para ele. E vocês dois já para o banho!
JUCA - Xiiiiii! Derrubei a joaninha lá fora! Minha Joaninha sumiu.
PAI - Amanhã você e a tartaruga encontram ela pelo quintal.
JUCA - Mas ela pousou em mim, queria ficar comigo. Eu quero minha amiga.
MÃE - Assim que você acordar de manhã pegamos a tartaruga e ajudo vocês a procurarem.
PAI Vai dormir depois do banho que amanhã a gente encontra.

(No meio da noite Juca acordou para fazer xixi e viu a luz da lua entrando pela janela e foi olhar, ela estava bem em cima da janela conversando com a tartaruga)

LUA -Então seu nome é Gertrudes? Vou iluminar cada cantinho e você procura a joaninha para seu amigo JUCA.
GERTRUDES - Ela é vermelha de bolinhas pretas. Essa procura pode demorar a noite toda.
JUCA - Então seu nome é Gertrudes né? Dona Lua eu posso pedir ajuda para as estrelas para ajudar a gente!
LUA - Isso! Isso!
GERTRUDES - Não precisa! Eu já achei! Ela está lá no balanço brincando. Olha lá!
LUA - É mesmo! Olha só que danada!
GERTRUDES - A sua luz bateu na pele dela e as bolinhas dela brilharam.
JUCA - Preciso dormir. Vou colocar a JOANA na cama para ela não se perder. Boa noite Gertrudes! Boa noite lua! Obrigado.
 MÃE - hora do café! Todo mundo levantando, lavando o rosto, escovando os dentes e já para a mesa!

Depois de um sono bom
A gente levanta, toma aquele banho,
escova os dentinhos ,
na hora de tomar café,
é um café quentinho
que a mamãe prepara com todo carinho,
tomar café é bom, é café fresquinho.

PAI - Vamos logo, pois temos que achar o dono do galo.

JUCA - Vou pegar a coleira da Gertrudes e acordar a Joana, elas vão ajudar.
MÃE- Quem é Gertrudes?
PAI - Quem é Joana?
JUCA - Joana é minha joaninha e Gertrudes é o nome da tartaruga, que a Lua contou para mim, elas acharam a Joana ontem a noite.
PAI - Crianças tem muita imaginação.
MÃE - Acho que vem gente lá longe!
PAI - Tem razão. E vem com pressa!
JUCA - Oi! Quem vem lá?
HOMEM - Bom dia pessoal! Vocês por acaso não viram um galo, que se bandeou para estas bandas, que gosta de bagunça?
PAI - Achamos ele sim! Bagunceiro, mas conseguimos pegar e trancar no porão para depois procurar o dono.
HOMEM - Graças a Deus! Eu estava preocupado e sentindo muita falta dele.
MÃE - Pode ficar tranquilo, nós cuidamos dele direitinho.
GALO - Cantou ao ouvir o dono.
HOMEM - Frederico! Frederico! ( O galo correu em direção ao dono e se abraçaram)
MÃE - Vamos entrar que está ameaçando uma boa chuva!
PAI - Chuva das boas!
HOMEM - Vou indo antes que caia. Obrigado a todos!
JUCA - Vamos Joana! Vamos Gertrudes!

( Todos correram para dentro de casa, o sol se escondeu, a lua também e Gertrudes não conseguiu chegar a tempo se escondeu nos cascos.)





O FUNERAL DA TARTARUGA

MÃE – Juca! Está chorando porque?
JUCA – Gertrudes morreu!. Arrancaram os braços e a cabeça dela!
MÃE - Morreu! Tá mortinha! Mortinha mesmo de morte morrida!
JUCA – Gertrude acorda! Deus! Me devolve ela já! Ela precisa passear comigo, precisa comer, precisa beber água, precisa fazer cocô. Se o senhor não me devolver ela vai fazer cocô no seu Céu! Vai sujar tudo. Aqui ela vai poder se divertir, correr, brincar, e um montããããão de coisas boas. Trabalhar no quintal. Trabalhar não pode! Tartarugas e crianças não devem trabalhar. Eu ensino ela umas coisas. Depois eu monto nela e ensino ela a imitar um cavalinho...UPA!...UPA!...UPA! Vamos, vamos. Devolve já!
MÃE – Juca! Para já! Não tem mais volta, ela se foi. Para menino! Senão vai acordar seu pai. Eu compro outra.
JUCA – Não quero! Quero Gertrudes, ela sempre foi minha amiga.
MÃE – Te compro um celular! Uma bike! Um patins! Um Skate! Um Notebook!
JUCA – Não. Ela conversava, brincava, era minha melhor amiga.
MÃE – Que amiga que nada! Uma tartaruga velha e preguiçosa, filha de uma Ostra ou sabe-se lá do que, não fazia nada, quando começava a fazer não acabava...
JUCA – Não liga não Gertrudes. Mamãe te chama de velha e preguiçosa, porque ela é gente grande, e gente grande não para, vive correndo, fica cansada e maltrata quem é mais devagar, porque eles têm as pernas grandes. Como ela pode saber que você é velha? Ela não sabe quantos anos você tem. Ela não sabe que você faz um monte de coisas porque nunca foi tartaruga. Tartaruga é tartaruga, criança é criança, gente grande é gente grande. Se Deus te acordar a gente vai mostrar tudinho para ela.
MÃE – Seu pai acordou eu vou chamar ele para conversar com você e ver o que fazer com isso.
JUCA – Lembra Gertrude aquela vez que eu te dei minha moeda? Você guardou na sua casa, tomou banho, passou perfume, eu ajeitei aquela fita vermelha na sua cabeça e você falou que ia arrumar um namorado. Você ficou doente por três dias. Acho que foi muito perfume, só foi dois vidros.
MÃE – Está assim desde manhã, chorando muito e falando sozinho. Não sei mais o que faço. Já prometi tudo e nada.
PAI – Olha Juca. Se ela morreu não adianta chorar. Deixa ela ai e vem conversar comigo, tenho umas coisas para te falar que você pode gostar. Vem amigão!  Filho, sei que você sente muito a morte de Gertrudes. Eu também gostava muito dela. Mas vamos fazer para ela um grande funeral.
JUCA – O que é funeral, pai?
PAI – É um local onde a gente mostra o quanto a gente gostava daquela pessoa que se foi e se despede dela e guarda ela. Vamos comprar uma caixa bem bonita, toda colorida, comprar muitas balas, bombons, chocolates, bolachas, refrigerantes, salgadinhos, acendemos muitas velinhas de aniversário, convidamos todos os amiguinhos, cantamos uma música bem bonita e você sopra as velinhas. Pegamos a caixa colorida com a Gertrudes dentro dela, abrimos um buraco bem grande no quintal, enterramos a caixa, colocamos uma pedra enorme em cima, escrevemos o nome dela na pedra e o dia em que ela morreu. Isso é funeral.
JUCA – Vamos fazer isso! Isso...Isso... Isso...

“Lá vem Gertrudes,
Tartaruga aqui e lá...
Lá vem Gertrudes,
Para ver o que que há...

Gertrude é pateta,
Também tartaruga,
É lenta, é velha,
Tantas fez Gertrudes que foi
Para o Céu...
(repetir)

JUCA – Sabe pai. Não podia ser lá longe onde tem um rio. Aquele lá longe.
PAI – Longe, onde?
JUCA – Lá perto da casa da tia Norma, que gosta de tudo certinho. A amiga do prefeito.
PAI – Filho, o quintal que você fala perto da tia Norma é uma praça ao lado do Rio Tietê, não se pode fazer o que se quer numa praça, nem mesmo abrir buraco.
JUCA – Mas está cheio de buracos lá, até na calçada.
PAI – Só podemos fazer se for em casa.
JUCA – Está bom! Vamos, pai, vamos! A Gertrude vai ficar contente, vai dançando lá para o céu. Eu vou buscar ela.
Pai vem cá! Vem cá, ela está viva!
PAI - Que bom hein? Economizei um dinheirinho – Ela está viva! Não vamos mais ter que fazer funeral!
JUCA – Vai sim pai! Eu mato ela! Eu mato ela!

(GERTRUDES SAI CORRENDO E TODOS CORREM ATRÁS).

FIM





MACONDO UM MUNDO NENHUM NO MAR

Por Sidney Nunes                         Hoje o mar faz onda feito criança, no seu balanço calmo nós descansamos. Nessas horas dorme l...